
Carlos Brasileiro
Advogado, 26 anos, Presidente da Juventude Socialista do PDT da Bahia, Secretário Nacional de Formação Política da Juventude Socialista do PDT, Tesoureiro do PDT da Bahia, Pré-candidato a deputado estadual pela Bahia
Em 2025, os Estúdios Globo emplacaram um novo carro chefe na novela das 9: ´Três Graças´, escrita por Aguinaldo Silva. A trama, que é descrita pela Folha de São Paulo como “fenômeno” entre os jovens, sendo a novela mais assistida pelo público desde 2024. O bom desempenho entre adolescentes – inclusive nas redes sociais – surpreende, superando até mesmo sua antecessora, ´Vale-Tudo´, protagonizada pela vilã viral Odete Roitman.
O enredo da novela trás em seu bojo um esquema de falsificação e adulteração por uma fundação de grande porte, administrada por super-ricos que não hesitam em prejudicar a saúde de milhões de brasileiros em nome enriquecer cada vez mais. No lugar das substâncias pagas por quem as compra, as capsulas dos remédios são preenchidas com farinha, se tornando verdadeiros placebos.
Tragicamente, a vida brasileira imita a arte. Não no que diz respeito à medicações – até onde se sabe, ao menos – mas no tratamento de uma das suas principais doenças: a educação pública.
De 1980 pra cá, os trabalhistas repetem exaustivamente que o remédio para diversas das nossas mazelas sociais é a educação em tempo integral. Símbolos de uma era, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola protagonizaram a epopéia dessa luta. Juntos, construíram mais de 500 Centros Integrados de Educação Pública. Popularmente chamados de Brizolões, os CIEP´s, no estado do Rio de Janeiro, recebiam as crianças pela manhã, ofereciam 3 refeições, garantiam o ensino curricular, atividades esportivas, protegiam as crianças da violência e garantiam aos pais a oportunidade de acessar o mercado de trabalho enquanto os filhos estavam estudando.
Seu lema “Direitos iguais para todos, privilégios só para as crianças” é o símbolo de uma geração que entendeu que a transformação do Brasil perpassava por investimento massivo em educação em tempo integral.
O remédio, quase 50 anos depois, não perdeu sua validade. Enquanto o mundo se transforma em velocidade nunca antes vista na história da humanidade, com a tecnologia surpreendendo até mesmo os mais jovens através da Inteligência Artificial, o Brasil segue tendo de encarar diariamente dramas antigos, como a fome e a incapacidade de formar uma geração capaz de nos colocar na disputa tecnólogica internacional.
A educação em tempo integral, continua, portanto, sendo medicação eficaz e multifacetada:
- Protege crianças, adolescentes e jovens da violência.
Dentro da escola, as chances de ser vítima de uma bala perdida que sempre encontra os corpos dos filhos dos pobres é diminuída de forma considerável. Ali não será assediado para se tornar avião ou fogueteiro, muito menos usário ou traficante de armas e drogas. Suas armas serão livros. - Nutre, alimenta e afasta a fome
A desigualdade ainda atinge os filhos dos paupérrimos com sua pior face no Brasil: a fome. Apesar de ter deixado o mapa da fome em julho de 2025, o IBGE aponta que mais de 6 milhões de pessoas ainda estão em estado de insegurança alimentar grave no nosso país.
O índice atinge o seu maior patamar entre crianças e adolescentes, onde os números demonstram que este público é atingido em mais que o dobro da média do país.
Na escola em tempo integral, ninguém sente fome: 3 refeições, pela manhã, no almoço e à tarde. Barriga cheia garantida. - Fortalece o trabalho.
Com as crianças na escola o dia inteiro, mães e pais não precisam abrir mão de trabalhar para cuidar de seus filhos. Podem trabalhar, prestar serviços, empreender, ter empregos em horário comercial, abrir comércios e aquecer a economia. - Igualdade de oportunidades
A educação em um único turno como consenso, é, em verdade um mito que só se aplica aos filhos dos pobres. Enquanto estes estão sem ter onde ficar, ou forçando seu irmão mais velho (na maioria das vezes também criança ou adolescente) a cuidar dele, o filho do rico estuda o matemática, português, ciência e história pela manhã e pela tarde tem acesso a atividades extracurriculares que só quem pode pagar alcança: hipismo, esgrima, tênis, golfe, vela; escola de idiomas em inglês, espanhol, mandarim, francês, alemão; prática de xadrez, robótica, reforço escolar;
Diante de tudo isso é inexorável que vá se levantar a velha voz do atraso, já fanha, rouca e cansada, mas sempre persistente a dizer – como quem está disposto a substituir remédios por farinha – que este investimento é muito caro.
Como se, no Brasil, cerca de metade de tudo que é arrecadado através dos impostos – pagos majoritariamente pelos pobres, diga-se de passagem – não fosse destinado aos bancos e investidores estrangeiros através da dívida pública e da maior taxa de juros real do mundo.
Seria cômico, se não fosse trágico, que no que diz respeito à educação, a realidade descrita em ´Três Graças´, é a regra no Brasil: nos vendem placebo, farinha, falsificação e cobram caro por isso.
A verdadeira cura, porém, é a educação em tempo integral.