
Elizângela Isaque
jornalista, escritora e cronista. Atua há mais de uma década na Assessoria de Comunicação do PDT Nacional, onde é editora do site nacional do partido, e integra a equipe de jornalismo da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP). É especialista em Bioética e Ética em Pesquisa pela Universidade de Brasília (UnB) e pós-graduanda em Sociologia Política e Aspectos Culturais.
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”
O fim do primeiro turno das eleições deste ano, além do gosto amargo de um revés avassalador, traz duas perguntas inevitáveis: “Onde foi que nós erramos? O que podemos fazer agora?”. Essas questões são latentes na mente, no coração e no espírito daqueles que lutaram como verdadeiros soldados nessa guerra que, embora não possa ser chamada de santa, traz um objeto verdadeiramente nobre: a busca pela dignidade humana.
É inevitável não tecer considerações acerca do que de fato está em jogo a essa altura do campeonato no futuro do Brasil: o destino de milhões de famílias que buscam diariamente ganhar o pão, o leite e o café de cada dia com o suor do próprio rosto, no ir e vir de sua rotina semanal e, no final de cada jornada, se sentirem cidadãos.
Dois séculos após sua independência da coroa portuguesa e 41 anos após o fim da Ditadura Militar, o Brasil de 2026 ainda é uma república com uma democracia muito jovem, lutando para se estabelecer sobre uma base institucional frágil, diante de uma calculada estratégia de erosão democrática. Ainda respiramos os traumas de uma expressão brutal, que sufocou sonhos e freou reformas estruturais que, da base, permitiram erguer uma nação verdadeiramente soberana.
Os tanques, armas e torturas inimagináveis impediram a continuidade de um projeto que ia além do poder, porque almejava reformular suas estruturas. A partir de um Estado com pilares fortemente amparados por uma estrutura social-desenvolvimentista e inclusiva, o resultado seria uma população verdadeiramente capacitada, livre, consciente de seu papel social e, acima de tudo, do seu valor.
O golpe militar não foi eficaz em seus propósitos somente ao longo dos 20 anos de duração do regime. Naquele período, mais especificamente a partir de 1971, com lei federal e tudo, os generais desprovidos de amor à pátria e ao povo seguiram à risca o projeto de despolitização sistemática das salas de aula das escolas públicas de todo o país.
Desde então, o projeto de forjar uma população analfabeta política funcional tem logrado um êxito lamentável. Não se trata apenas de uma herança do apagamento cívico, mas de um contínuo e progressivo adestramento que tem tornado o cidadão desprovido de um pensamento crítico, capaz de idolatrar os representantes de uma elite historicamente escravocrata, enquanto bebe do cálice do ódio que ela derrama sobre as mentes que passam ironicamente a repudiar seu verdadeiro benfeitor.
Sabemos que esse golpe nunca foi restrito a compatriotas. O senhor dos anseios autocráticos do nosso militar capataz tem nome e sobrenome americano, e é dono de um grande animal de estimação que, largado no nosso quintal, tem as cores do fundamentalismo religioso, rugindo uma moralidade tão extremista quanto sedenta pelos espaços de um poder terrivelmente evangélico.
A ordem e o progresso de nossa bandeira nunca serviram tanto ao “Deus, pátria e família” tradicional dos que clamam sem a devida compreensão de que “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”. E nessa realidade temos uma influente parcela da população mergulhada numa religiosidade tão ditatorial quanto seu comparsa de “sete estrelas”, permanentemente armada até os dentes pelo moralismo de garganta e embrenhada nos tentáculos da política, orbitando diante do trono do poder. Seu alvo? Mentes habilmente desprovidas de um senso crítico civicamente comunitário.
Na teologia que prega o domínio, o Jesus das massas não é o que foi crucificado por ensinar que Deus habita no amor pela justiça social. Dos púlpitos, onde candidatos fazem “arminha”, o Messias é um redentor da meritocracia desalmada. Dos bancos, eles recebem améns para a mentira que faz o mérito virar regra, mascarando as condições díspares sob as quais ricos e pobres nascem e se estabelecem num mundo governado pelas exceções privilegiadas.
Sabendo que o verdadeiro perigo reside em um sistema educacional capaz de ensinar o indivíduo a pensar, a repressão estatal atuou de forma sistêmica para reduzir o horizonte do brasileiro à mera sobrevivência. Enclausurado em jornadas exaustivas que lhe roubam o tempo de descansar e se instruir, ele é privado de ler a vida com o senso crítico necessário para saber escolher entre aquilo que o mantém cativo e o que, de fato, o libertará.
Num passado não tão distante, trabalhistas como Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola não precisavam inventar fake news contra seus adversários ou narrativas repletas de espantalhos ideológicos. Suas propostas falavam por si, porque vinham ao encontro dos anseios de uma nação que, muito antes de 1964 e logo após a redemocratização de 1985, conhecia as reais necessidades do país.
O legado de soberania industrial e desenvolvimentista de Vargas, as sementes de justiça social e direitos plantadas por João Goulart e a visão educacional revolucionária e emancipadora de Brizola se impuseram por si sós e deixaram frutos que a elite bronzeada sob o sol de Miami trabalha diuturnamente para destruir.
Afinal, para essas mentes capturadas pela lógica meritocrática, o capitalismo deixa de ser o explorador frio e calculista que de fato é para se converter na salvação de uma verdadeira distopia: uma realidade paralela onde a sobrevivência vira uma ilusória questão de mérito e as chances de sucesso são vendidas como romanticamente iguais para todos. Diante de tal cegueira, não nos admira que a defesa de um sistema de saúde universal eficiente e de um ensino público de qualidade – de preferência em tempo integral – seja sumariamente varrida do cerne do debate, sufocada pela farsa deliberada de que todo mundo pode ser rico.
A três dias do segundo turno da eleição presidencial, temos a certeza de que há resistência. Afinal, a história do Trabalhismo brasileiro é feita justamente de resistir a asfixias muito piores — do exílio de Jango à resiliência heroica de Brizola em fundar o PDT após perder tragicamente a sigla do PTB para o regime.
O não cumprimento de uma burocrática cláusula de barreira não decreta o fim de uma identidade que pulsa nas nossas veias e fustiga a rosa da democracia nas urnas, porque nada disso apaga o seu perfume de transformação. Como no poema de Carlos Drummond de Andrade, vamos de mãos dadas no tempo presente: se na mão esquerda carregamos as dores e o lodo de um coração ferido pelas perdas, na mão direita sustentamos a rosa do Trabalhismo viva, pulsante e convertida em nossa mais bela e potente arma de luta.
A revisão da nossa história nos permite compreender que a gravidade das fraturas de uma batalha não é o veredito para o fim da guerra, mas um chamado urgente para prosseguir. Responder às perguntas que agora ecoavam – onde erramos e o que fazer agora? – exige reconhecer que a emancipação de um povo não se encerra em um período eleitoral. Ela se constrói na reconquista diária das mentes e dos corações colonizados pelo temor.
Não há espaço para a desistência entre aqueles que compreenderam que o Brasil só será verdadeiramente soberano quando for igualitário. A nossa missão, como ensinava Brizola, é continuar a ”inundar o país de consciências esclarecidas”. É essa clareza sobre a nossa trajetória cívica e sobre a força da nossa gente que há de romper as correntes da ilusão do mérito e do ódio. Pois, contra toda a opressão disfarçada de fé, nós sabemos que a solução é continuar disseminando a verdade que, finalmente, um dia nos libertará.